11.4.09

O Sono de Chestov

Numa tarde do mês de julho de 1930, o francês Léon Chestov foi visto por Deus (que tudo vê e ajuíza) escrevendo algumas rápidas linhas – fruto de suas longas reflexões sobre os atributos divinos:
"Il y a une seule chose qui est refuseé à Dieu lui-même, c’est de modifier ce qui a eu lieu. L’impossibilité d’abolir le passé semble absolue, car la science du possible précède la science du réel." (Há uma só ação que é vedada mesmo a Deus: modificar o que já se passou. A impossibilidade de abolir o passado parece absoluta, pois a ciência do possível precede a ciência do real).
Com estas palavras havia concluído o segundo capítulo de sua teodicéia "Athènes et Jérusalem". Feliz com o resultado de seu trabalho, recostou-se na poltrona e dormiu por algumas horas.
Durante o sono, Deus (que é livre de motivos e leis para agir) mudou seu passado. Fê-lo nascer em 1866, na cidade de Kiev, com o nome de Lev Isaakovish Shestov. Para que isto acontecesse, Deus alterou a estrutura íntima do universo em seu nascedouro – num átimo após o fiat lux. Como tudo que há está ligado a uma construção lógica e infinitamente precisa, uma nova existência, ligeiramente distinta da anterior, se fez. Planetas e galáxias tomaram trajetórias diferentes, e a vida sobre a Terra surgiu num outro charco primordial. Na história humana, um certo homem nasceu – homem que jamais teria nascido noutra configuração do universo. Sua prole, através da poeira dos milênios, ramificou-se em famílias e etnias distantes, e na Rússia do século XIX, um casal apaixonado (sem suspeitar a ascendência que os unia) teve um único filho (Lev Isaakovish Shestov) cuja vida seguiu o curso determinado pelo universo em seu nascedouro.
Tudo isto aconteceu em um espaço ínfimo de tempo, tão ínfimo que podemos dizer que não aconteceu.
Shestov acordou em sua poltrona e sentiu que, durante o sono, havia recebido e perdido algo extraordinário. Impelido por esta sensação inominada, voltou-se para a escrivaninha e concluiu o segundo capítulo de sua teodicéia – fruto de suas longas reflexões sobre os atributos divinos:
"Le principe logique de non-contradiction ne s’applique pas à Dieu. Dieu peut même faire que ce qui a été n’ait pas été". (O princípio lógico da não-contradição não se aplica a Deus. Deus pode até mesmo transformar o que foi no que não foi).
Feliz com o resultado de seu trabalho, saiu à rua e retomou seu lugar na trama da existência.

17.1.09

A Infinita Ilha de Creta

"The truth has never been of any real value to any human being – it is a symbol for mathematicians and philosophers to pursue. In human relations kindness and lies are worth a thousand truths"
(Graham Greene em "Heart of the Matter")

Naquela tarde, o grego revelou a Minos que a extensão da costa da ilha de Creta era infinita. Havia cumprido, no breve decurso de dois dias, a árdua tarefa de mensurar todo o reino. Para espanto da corte, havia chegado à inefável cifra sem a ajuda de medições, cálculos ou exaustivas viagens pela ilha. E foi naquela tarde, na sala hipostila do palácio de Cnosso, perante Minos e seu séquito de aduladores, que expôs o seu método:
"Mesmo que o grande mar congelasse e, destarte, as margens de Creta (com seus ínfimos contornos) fossem reveladas, medi-las implicaria em labor infindável e vão. Cada diminuta saliência e cavidade, se estudada por olhos apurados, desdobraria-se em outras ainda menores, e o decréscimo desses elementos não teria fim. Assim, concluo, meu Soberano, Deus e Senhor Amabilíssimo, que a extensão de vossa ilha é imensurável e o domínio de vosso reino infindo."
Minos ouviu o grego com altiva indiferença e mandou matá-lo – não pelo rigor exagerado de suas deduções nem pelo desplante de opor-se ao desejo de um soberano. Condenou-o por ter-lhe oferecido o infinito. O grego deveria saber: para um homem dono de homens; dono de terras, montanhas, lagos, bichos, prados e árvores, apenas o que há entre o infinito e o nada é o que interessa.

14.3.07

Anus Mundi

LITIGARE CUM VENTIS
"Um país é feito de homens e livros" – nos anos 70, esta frase de Monteiro Lobato foi utilizada de forma grandiloqüente nas propagandas "educativas" do governo militar. A pretexto de estimular o hábito de leitura do brasileiro, a tv era canhoneada com essas propagandas cívicas a cada intervalo. O objetivo escuso desse súbito e exaltado interesse dos militares pela cultura livresca era dissimular a conhecida paúra que tinham dos livros. Tal qual misósofos vestidos com a pele de educadores, os militares apresentavam a leitura como um nobre e solene dever cívico. Não deu certo. As propagandas só acentuaram ainda mais a relação apática que o brasileiro tem com a leitura.
Anos atrás, a Rede Globo (há muito acusada de ser o dejetório fedorento da cultura) convidou celebridades de notória ignorância para promover a leitura e, por tabela, melhorar sua imagem diante de seus detratores. Jogadores de futebol, atores de novela, modelos, cantores, socialites e marqueteiros apresentaram seus livros de cabeceira como um xarope amargo – mas necessário – que se toma antes de dormir e que deve servir para alguma coisa. Também não deu certo.

TIMEO HOMINEM UNIUS LIBRI
O brasileiro compra em média 1,8 livros por ano. Desta média, 67% são livros didáticos (esses que se compra a contragosto, a mando da escola). De livros não-didáticos, a média é praticamente meio livro por ano (uma média que tem se mantido estável por mais de vinte anos). Ou melhor, o brasileiro lê em média um livro a cada dois anos.
Na Colômbia (país que o brasileiro comum considera pobre e atrasado), a média anual de livros não-didáticos por habitante é 2,4 (quase 5 vezes mais que a do Brasil). Nos Estados Unidos e na Inglaterra, a média anual é 5, e na França 7. Enquanto o brasileiro lê um livro a cada dois anos, o europeu lê um livro a cada dois meses. Deste modo, se um brasileiro adquire o hábito de leitura, vamos dizer, aos 15 anos e morre aos 65, ele leu 25 livros durante toda a sua vida. 25 livros é o que um europeu lê em pouco mais de 4 anos. Ou seja, o que um europeu lê durante o final de sua adolescência (dos 15 aos 18 anos) corresponde ao que um brasileiro lê durante toda sua vida.
Num país onde apenas 23% da população tem emprego com carteira assinada e onde 80% mal consegue subsistir dignamente (estou falando do Brasil!!!), é tolice esperar que essa nação de pobres inclua um livro em sua minguada cesta básica. No entanto, uma pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE (realizada em 2003) mostra que, na divisão de gastos da classe média, o livro fica atrás das despesas médias com cigarro, perfume, cabeleireiro e manicure. E a mesma pesquisa revela que famílias com maior poder aquisitivo consomem 4 a 6 vezes mais esses produtos do que livros.

ABYSSUS ABYSSUM INVOCAT
Uma pesquisa conduzida pela UNESCO em 2000, com a gurizada de 15 anos (das escolas públicas e particulares), revelou que a maioria dos alunos brasileiros (tanto das escolas públicas quanto das particulares) não entende patavina do que lê, é capaz apenas de realizar tarefas simples (como localizar informações específicas num texto), confunde sua opinião com a opinião do autor e tem dificuldades em relacionar o conteúdo lido à realidade. Não é à toa que hoje já consta no currículo de muitas escolas particulares uma matéria nova, com professores especificamente treinados para ministrá-las: compreensão de texto. A simples compreensão do que se lê (que deveria vir naturalmente através do hábito aprazível da leitura) é hoje ensinado como "ciência independente" (a ciência de aguçar a intuição, lapidar o chute, e assim ter algum sucesso em questões de múltipla escolha que "caem" no vestibular).
Esse estapafurdismo educacional acontece porque ensinar compreensão de texto a não-leitores é como ensinar uma tartaruga a andar na corda bamba. O que o educador brasileiro faz é amarrar o bichinho a uma roldana, deixar a roldana deslizar pela corda e dizer: "olha! Quem disse que tartarugas não andam na corda bamba?".

SUNT PUERI PUERI, PUERILIA TRACTANT
Não é surpresa que a educação brasileira seja infantilizada e infantilizante. O método educacional utilizado no curso primário inexplicavelmente se repete no secundário e na universidade: o professor passa a matéria na lousa, os alunos copiam da lousa, o professor explica o que escreveu, e depois a alunada toda tenta decorar tudo aquilo antes da prova. E a coisa mais espiclondrífica de tudo isso é que o conteúdo do livro adotado pelo professor (livro que os alunos têm de comprar) é transcrito para a lousa e retranscrito para o caderno dos alunos, e o tempo que se perde para produzir essas duas cópias é chamado de "aula".
Incapazes de aprender pela leitura (pois a escola e a família não os preparam para isso), os alunos brasileiros são uns eternos "dependentes escolares" – acreditam que somente um curso universitário pode lhes outorgar conhecimento. Só proceis vê como as coisa tão: dias atrás, deixei um sujeito boquiaberto quando citei alguns detalhes da vida de Isaac Newton. Ele ficou pasmado quando soube que eu nunca tinha "feito curso de História".

MUNDUS VULT DECIPI
O valor simbólico que a cultura brasileira atribui ao livro e à educação é de caráter esquizofrênico. Por um lado, fala-se muito em "melhoria da educação", "revolução educacional", "necessidade da leitura". Por outro lado, o que o brasileiro menos quer é educar-se. Se, ao invés de carros e eletrodomésticos, os programas de tv dessem como prêmio um vale-livro no valor de 10 mil reais – para o sujeito inaugurar uma pequena biblioteca em casa, ou uma bolsa de estudo numa universidade SÉRIA, o sujeito contemplado cuspiria na cara do apresentador.
Quando o brasileiro diz "quero uma educação melhor", na verdade, está dizendo "quero um diplominha universitário fácil, que não me dê muito trabalho para conseguir, e que me possibilite arranjar um emprego melhor". Educação séria (prá valê mesmo!!!) envolve um nível de empenho, interesse e vocação acadêmica que poucos estariam dispostos a encarar.

STULTORUM INFINITUS EST NUMERUS
É curioso que, num país de não-leitores, exista uma preocupação obsessiva com o "português bem falado e escrito". Nunca houve tanta gente alarmada com os descaminhos da língua portuguesa como há hoje. A mera inobservância de regrinhas gramaticais tolas (como dizer "duzentas gramas" ao invés de "duzentos gramas") é considerada falta imperdoável, suficiente para estigmatizar qualquer falante ou escrevedor da língua.
Esse "policiamento lingüístico" (promovido por gente imperita e revistas palpiteiras) é hoje uma forma de preconceito velado do cidadão de classe média (que não se sente à vontade para espezinhar abertamente o pobre, o negro e o nordestino – que, afinal de contas, não falam um português nem melhor nem pior do que ele).

VOX CLAMANTIS IN DESERTO
Einstein e Aristóteles, embora separados por um abismo secular e cultural, tinham uma opinião em comum: ambos acreditavam que somente a busca de conhecimento motivada pela curiosidade, pela pura vontade de conhecer o mundo ao seu redor (sem ter qualquer outro objetivo em mente), redundaria em verdadeiro progresso humano.
Frank Zappa, que também pensava da mesma forma – mas que não dourava a pílula em suas declarações, escreveu num de seus álbuns: "drop out of school before your mind rots from exposure to our mediocre education system. Go to the library and educate yourself if you’ve got any guts".

21.2.07

A Verdade Sobre a Extinção do Homem de Neandertal

Da paleantropologia colhemos poucas certezas: o homo neanderthalensis (assim chamado a partir de fósseis encontrados numa gruta da região de Neanderthal na Alemanha) foi o parente mais próximo da espécie humana, nosso primo casca-grossa e lerdo, inexplicavelmente extinto cerca de 30.000 anos atrás.
Mas, a bem da verdade, o homem de Neandertal, mesmo vivendo na rusticidade do período paleolítico, era imensamente superior ao seu primo sapiens em perspicácia e sutileza de raciocínio – qualidades que o levaram a um amadurecimento evolutivo por demais prematuro para os padrões da época. Outra verdade é que o homem de Neandertal lentamente sucumbiu ao peso das adversidades, e sua sofisticada estrutura mental (ainda em estado experimental e preambular) apenas acelerou seu processo de extinção.
Sua caixa craniana (tão volumosa quanto a nossa, mas exageradamente longa e amolgada) terminava num amplo “coque” acima da nuca e numa “viseira” acima dos olhos. Essa excepcional configuração craniana, em forma de comadre emborcada (agravada por uma calvície precoce – outro aspecto inquestionável de sua inteligência!), obrigava-o a manter hábitos noturnos, pois seu cérebro literalmente fritaria se intentasse longas caminhadas sob o sol das planícies. De fato, os esqueletos dos neandertalenses atestam uma existência penosa e curta (poucos atingiam os 40 anos), apresentando traços de profundos traumatismos, principalmente na região do crânio que, por ironia da natureza, alojava seu órgão mais aprimorado e frágil.
Mesmo massudo e forte, não era dotado de grande estatura. Era pequeno, com antebraços e cochas extremamente curtos – características que lhe dificultavam longas jornadas à procura de alimento. Por isso, preferia o aconchego das grutas – ambiente propício para desenvolver suas habilidades intelectivas. Aliás, os sítios arqueológicos mostram que, em comparação com seus espandongados primos sapiens, o ambiente doméstico do neandertal era bastante simples e desprovido de badulaques – o que denota uma acuidade organizacional invulgar e um critério de praticidade doméstica não conhecido no paleolítico superior.
Vivendo numa época marcada por profundas flutuações climáticas e numa região esburacada por pequenos vulcões, os neandertalenses (embora não gostassem de fabricar utensílios de pedra) desenvolveram técnicas de controle ambiental que suscitavam perplexidade em seus primos sapiens.
Uma dessas técnicas consistia em extinguir pequenas crateras vulcânicas (que explodiam a todo momento, causando tumulto e poluição atmosférica) entupindo-as com grandes pedras de aproximadamente 217 quilos (unidade de peso utilizada pelos neandertalenses que hoje figura entre os principais enigmas da paleantropologia). Apesar de sua compleição robusta e abrutalhada, um neandertal sozinho não conseguia dar conta de tanto peso. Sendo assim, criaram um conceito que se tornou o grande paradigma do período paleolítico e que, desde então, tem sido imitado, aprimorado, estudado e popularizado por inúmeras gerações de sapiens: a sinergia de grupo.
Era assim: dois indivíduos se colocavam um diante do outro (a uma distância de pouco mais de um metro) e, apoiados pelas mãos, inclinavam o corpo para frente, prenunciando a forma piramidal que um dia seria popularizada pelos egípcios. Então, um grupo de neandertalenses erguia a pedra e a acomodava entre as amplas e acachapadas cabeças (posicionadas em forma de cunha) dessa dupla de carregadores. E assim, num esforço supremo e mostrando razoável domínio do conceito de equilíbrio, os dois caminhavam até as margens da cratera, colocavam-se um de cada lado e, com as mãos na cintura, permaneciam inclinados sobre o buraco, apoiados apenas na pedra entre suas cabeças. Depois, deixavam-na cair.
Os infortúnios dessa prática lhes permitiram aprimorar alguns procedimentos técnicos e rever alguns conceitos. Cinco mil anos após o primeiro incidente, os neandertalenses descobriram que a constante queda dos carregadores poderia ser evitada se dois outros indivíduos os abraçassem pelas costas e os puxassem no momento em que largassem a pedra. Após dois milênios de tentativas inúteis (pois os ajudantes iam inevitavelmente pro buraco com os carregadores), os neandertalenses decidiram transformar a técnica de extermínio de vulcões num ritual de sacrifício ao seu Deus – primeira expressão de sentimento religioso entre os hominídeos. Desgraçadamente, esses rituais terminaram por ceifar a vida de quase toda a população masculina.
Com a população masculina minguando, a extinção veio de forma implacável. No entanto, recentes descobertas arqueológicas nos revelam que (apesar da feiura atroz de suas mulheres) não eram raras as uniões carnais de fêmeas neandertalenses com machos sapiens. O que nos leva a crer que os genes do homem de Neandertal ainda fluem em nossas sapientes veias. De fato, há quem hoje sustente a tese de que podemos encontrar traços do psiquismo neandertal em alguns indivíduos de nossa espécie.
Estou convencido disso.

9.1.07

Enquanto Lépidos Pardais Algazarravam aos Pulos Anunciando uma Alvissareira Manhã...

“O bom escravo é o pior senhor” (provérbio popular)

Dias atrás, enquanto lépidos pardais algazarravam aos pulos anunciando uma alvissareira manhã, recebi o telefonema de uma vendedora que me oferecia a assinatura de um jornal famoso e indispensável. Como não costumo esbaldir meus proventos com jornais famosos e indispensáveis, declararei com firmeza (por três vezes!, e sem ser ouvido!) que não estava interessado no negócio. A leve exasperação em minha voz deve ter reavivado sentimentos de desagravos há muito represados na alma daquela moça. E dali em diante, o que parecia ser um simples contato de telemarketing transformou-se num achincalhamento gratuito.
A primeira leva de malevolências veio na forma de um chorrilho de perguntas ríspidas e cavilosas: “qual o seu grau de escolaridade?; domina algum idioma?; quantos livros lê por ano?; costuma se atualizar como profissional?; costuma fazer cursos de especialização?; se interessa por arte e cultura?; quais seus assuntos prediletos?; procura se manter informado sobre acontecimentos e fatos no Brasil e no mundo?; que jornais e revistas costuma ler?”.
Quando soube que eu nunca havia assinado um jornal ou revista na vida, que não me interessava por cultura e que meu assunto predileto era futebór, a vendedora me passou uma senhora esfrega: “você não se interessa por cultura? Mas uma pessoa sem cultura não é ninguém hoje em dia”. E de quebra, tratou com ironia meu querido esporte bretão: “só falta você dizer que é corintiano”.
Meu cérebro (que ainda não havia saído de seu típico torpor matinal) demorou a captar o insulto. Minha atônita mudez parecia que ia durar indefinidamente. Foi então que a vendedora sentiu que o momento era propício para iniciar a doutrinação. Falou da importância da informação no mundo globalizado, das exigências de uma sociedade cada vez mais competitiva, da preparação para o mercado de trabalho, do investimento pessoal numa boa educação, do conhecimento que traz segurança ao falar em público, do sucesso pessoal, da sinergia de grupo, do espírito empreendedor, da iniciativa, da liderança, do sucesso financeiro, do cidadão globalizado – senhor de seu destino e livre do paternalismo do Estado.
Como havia acordado de bom humor, escutei tudo aquilo com paciência e curiosidade (a vendedora realmente demonstrava boa-fé em sua determinação de resgatar um brucutu do cativeiro da ignorância). Mas, quando ouvi a pergunta “com qual cartão de crédito o senhor trabalha?” (a vendedora era pior que a mulher-do-piolho!), desliguei o telefone.
Hoje confesso, envergonhado, que naquele momento senti uma certa pena da moça (vítima de tão feroz TPM ou, pior ainda, herdeira ideológica da maçarocada neoliberal que assolou o Brasil nos anos 90). Porém, quem era eu para sentir pena da moça? Ela, com seu discurso neoliberal-prafrentex, deve estar muito mais confortavelmente inserida na sociedade do que eu – eu que, desde a adolescência, já me identificava como protagonista do “Poema em Linha Reta” do Fernando Pessoa.

19.12.06

Décadence avec Élégance

Coisas que só acontecem na tv: um repórter visivelmente emputecido anuncia que o salário dos deputados vai passar de 100 mil reais por mês (24 mil mais benefícios), sem falar na singela gratificação do décimo quinto salário e nos 5 meses de férias por ano. Depois, anuncia que um deles foi esfaqueado nas costas por uma pobre desempregada negra. Uma “doente mental”, segundo o repórter (mas, tenho cá minhas dúvidas: “doentes mentais” não são aqueles que fazem coisas sem sentido?).
Bom, depois de expor sua indignação contra os “maus políticos” veio o cocozão educativo: “nas próximas eleições, pense bem e vote com consciência”.
A recomendação do repórter me fez imaginar uma cena: um sujeito, no topo de um edifício em chamas, percebendo que não tem nenhuma chance de sobreviver, decide pular. Toma posição no parapeito, junta os pés, abre os braços, dá um salto beduíno (para trás, com 3 torções no ar), complementa com um triplo mortal, e se espatifa no chão. Moral da história: antes de se espatifar no chão, salte corretamente.

6.12.06

O Furtivo Fomentador de Hecatombes Gaspar de Moura

“Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois enganaram-no meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco”
(Heráclito de Éfeso – Fragmentos)

Consta nos papéis do Santo Ofício o processo de Gaspar de Moura, cavaleiro professo da ordem de Cristo e autor de Discours Lunaire – livro (execrado pela Igreja) que trazia em seu subtítulo o germe da discórdia que embostearia a Europa por várias décadas: Discours scientifique au sujet de la chute de la lune adressé à mes compatriotes et en particulier à Sa Magesté D. Jean V Roy de Portugal par le chavalier Gaspar de Moura à Lisbonne 1711.
Não devemos passar adiante sem fazer notar que Gaspar de Moura tem sua biografia envolta em mistérios. Com exceção desse pequeno ensaio científico (redigido num francês precário e salpicado de inúteis arabescos lingüísticos – mal característico dos elegantes textos da época) Gaspar não deixou nenhum escrito, nem mesmo um único rastro de sua ruidosa passagem pela vida. O pouco que se sabe de seu caráter é de origem duvidosa. Os que afirmaram tê-lo conhecido provavelmente buscavam notoriedade, e descreveram-no como homem metódico, de vida discreta, hábitos excêntricos e inclinação ao enigmático. Os periódicos ingleses, sem saber onde colher informações, não dissimularam a intenção de forjar uma figura legendária desse obscuro astrônomo português, e é razoável supor que fabricaram laboriosamente as narrativas de suas esquisitices. Relatos fantasiosos surgiram em Londres, Lisboa e Coimbra. Era dito, por exemplo, que morava dentro de um barril, à maneira de Diógenes, ou que vivia nos ermos, em ruínas abandonadas, alimentando-se de gafanhotos e lesmas.
Na verdade, sua existência teria passado de todo despercebida não fora a publicação de seu ensaio no periódico inglês The Guardian. Em dezembro de 1713, caiu nas mãos de Richard Steele uma tradução estropiada do Discours Lunaire para o inglês – Loony Discourse – que anunciava uma descoberta espetacular e aterradora: a Lua está a cair sobre a Terra. O artigo foi inescrupulosamente publicado sem as devidas correções, e logo virou alvo de chacotas nos saraus da corte inglesa.
A má fama de Gaspar de Moura conspurcava a honra lusitana, e as anedotas que chegavam da Inglaterra eriçavam os cabelos dos portugueses. Foi então que, em 1714, uma análise paciente do texto original do Discours Lunaire foi realizada pela Santa Inquisição (que não gostou de nada do que ali encontrou).
O ensaio, que à primeira vista parecia um aranheiro de jargões e raciocínios tortuosos, continha uma idéia bastante simples. Gaspar sugeria que se dois pesos (mesmo extraordinariamente diferentes) fossem lançados da mesma altura, um em queda livre e outro em trajetória horizontal, desconsiderando a influência do ar, atingiriam o solo ao mesmo tempo.
Para quem estivesse familiarizado com os trabalhos de Galileu, a hipótese de Gaspar não trazia nenhuma novidade. No entanto, sua originalidade estava em afirmar que se o peso lançado na horizontal atingisse uma velocidade tal que sua taxa de queda coincidisse com a taxa de afastamento do solo produzido pela curvatura da Terra, ele permaneceria em queda perpétua, assim como a Lua.
Os deputados do Santo Ofício viraram Portugal de cabeça para baixo à procura do autor de tamanho despautério. Durante décadas decretaram prisões, jogaram Mouras ao fogo, arruinaram famílias, empestearam a vida portuguesa com chantagens e intimidações. Porém, o petulante astrônomo não foi encontrado.
Desgraceira maior veio em 1755, quando a Gazeta de Lisboa recebeu um pequeno bilhete no qual o próprio Gaspar de Moura havia sapecado o jamegão. No papel havia um simples poema:

“O pouco que a razão me deu
cabe numa mão fechada.
O pouco coa razão é muito,
o muito sem razão é nada.
A luz da razão não erra,
a soberba da visão nos trae.
A Lua que rodeia a Terra
também sobre a Terra cae”

Por infeliz coincidência, o poema foi publicado na primeira página do periódico na manhã do dia 1 de novembro de 1755 – exato dia em que um terremoto descomunal escangalhou Lisboa de um extremo ao outro. A concomitância dos fatos convenceu os deputados do Santo Ofício de que a doutrina infesta do encapetado espalha-merdas (que acabara de arrotar em versos sua última valentia) teria sido a causa do castigo de Deus manifestado na desgraça que se abateu sobre o povo português.
A captura de Gaspar de Moura tornou-se ponto de honra e, de fato, não demorou muito. Em dezembro daquele ano, a Inquisição deitou as garras num pobre e desgraçado oleiro. Lançaram-lhe uma acusação escabrosa: “tomar parte em tocamentos e ósculos com moçoilas de cujas circunstâncias de qualidade não se sabe”.
Durante suas admoestações na Casa de Tormentos, o infeliz em vão persistiu na mais formal e terminante negativa. Mas, não durou muito até ser tomado por incontinência verbal. Confessou, entre muitos outros pecados, ser o próprio Gaspar de Moura e, de sobejo, ter (sob o influxo do rabudo) instigado a fúria divina contra a população lisboeta. Os deputados do Santo Ofício se deram por satisfeitos e, a 27 de dezembro de 1755, o corpo do oleiro foi consumido em fogo lento num auto-de-fé no Terreiro do Paço em Lisboa.
Um ano após o acontecido, alguns manuscritos do Loony Discourse (porcamente retraduzidos para outras línguas) já haviam chegado aos confins da Europa, e inquisidores nas pequenas vilas dos Países Baixos já alardeavam a captura de 63 Gaspares de Moura confessos. Até hoje não sabemos se o verdadeiro acabou caindo nas garras da Inquisição. Pouco importa. Seu espectro ainda assombraria a Europa por mais algumas décadas, espalhando discórdia e calamidades naqueles tempos tão santos.

27.11.06

O Imperador Filósofo

“Para que serve um filósofo que não fere os sentimentos de ninguém?”
(Diógenes de Sinope, o cínico, 400-325 a.C.)

Platão nunca dissimulou sua descendência aristocrata, nem seu rancor contra a democracia ateniense. Não era para menos! Sua família (que aspirava ao poder oligárquico) viu com tristeza os anos de glória de Atenas degringolar em governo popular, e ele próprio viu Sócrates ser condenado à morte nas mãos dos democratas.
No entanto, o que mais incomodava Platão era o amadorismo inconseqüente dos líderes do povo, preocupados em adular multidões insanas e prontos a ceder às pressões do populacho. Para Platão, Atenas carecia de um líder responsável e capaz, detentor de virtudes, sabedor das verdades perenes, que tomasse sobre si a nau desgovernada do Estado e a conduzisse com mão firme, em consonância com a ciência sublime das formas puras e transcendentes (que só o estudo desinteressado da filosofia poderia oferecer). Em suma, um filósofo.
Platão até que tentou criar o seu governante filósofo. Em 367 a.C., aceitou o convite para ir a Siracusa com a missão de iniciar o tirano Dionisius II na ciência sublime das formas puras e transcendentes. Mas, o aprendizado logo desandou numa sucessão de arranca-rabos. Após anos de baldados esforços, perplexo diante da burrice irremediável do tirano (que preferia refutar argumentos com a ponta da espada), Platão abandonou o projeto e voltou a Atenas, amargurado e descrente dos homens.
O sonho de Platão se realizaria oito séculos após sua morte (com o cristianismo já comendo solto pela região mediterrânea). Em 497 d.C., um dos alunos amestrados pela Academia de Atenas, por uma dessas brenhas do destino, tornou-se líder de uma pequena região da Ilíria, na costa setentrional do mar Adriático, lugar onde ainda prevalecia um paganismo insubmisso ao domínio cristão. O jovem filósofo fez-se Imperador Theophylactus Trebonianus Gaius I com a promessa de erigir um império de extensão continental assentado sobre os ideais platônicos.
No seu primeiro ano de reinado, ainda fedendo a cueiro acadêmico e ansioso para pôr em prática seu cabedal de conhecimentos, Gaius I realizou um concurso público que trazia o cunho de suas preocupações filosóficas (e que tinha por fim iniciar o vulgacho inculto no sublime exercício da Lógica). A aptidão a ser avaliada era curiosa, e a recompensa de inestimável valor educativo. A pessoa que lhe trouxesse a informação mais inútil seria laureada com uma viagem a Atenas, e desfrutaria o privilégio de estudar na academia criada por Platão, sob os generosos auspícios do imperador.
Para a surpresa de Gaius I, a população se mostrou pródiga no fabrico de informações inúteis. Era tanta asneira pipocando de todos os lados que a improficuidade parecia ser o traço peculiar da cultura daquela região.
No dia da premiação, Gaius I reuniu o povo diante do palácio e abriu a sessão solene com um longo discurso em tom professoral. Discorreu sobre a filosofia neoplatônica e as inquietações metafísicas dos povos civilizados. Durante seu bolodório babelesco, muitos tiveram a impressão de que estavam diante do merecedor – incontestável – do prêmio. Quando o povaréu já não agüentava mais, o imperador deu início à questão principal. Explicou que havia criado o concurso a fim de exemplificar uns dos princípios basilares do pensamento neoplatônico: o da não-contradição. Princípio que, infelizmente, o impedia de conferir o prêmio ao vencedor, pois qualquer informação que fosse utilizada para se obter algo não poderia ser merecedora do predicado “inútil”.
Não teve tempo de descer a pormenores sobre o tal princípio. Um torrão de argila explodiu em seu cocuruto. Um garoto indignado (famoso na região por esmerar-se como incomparável artífice de inutilidades) foi quem arremessou o projétil. A ousadia inflamou o povo. Em poucos segundos uma montoeira de ensandecidos já infestava o pátio, e uma correria incontrolável se propagou palácio adentro. O massacre foi fugaz, e a apoteose se deu entre as colunas do pórtico com um popular ostentando a cabeça do imperador espetada numa estaca.
À noite, hordas de manifestantes saíram às ruas, consagraram-se à bebedeira e converteram-se ao cristianismo. O exercício da filosofia foi rigorosamente proibido em toda a região. Esses primeiros anos de tirocínio na fé cristã foram marcados por uma perseguição implacável aos filósofos. No entanto, ao entusiasmo inicial sucederam-se anos de razoável tolerância. Foi então que aquele garoto (que havia atirado o torrão de argila) tornou-se (por uma dessas brenhas do destino) o Imperador Bizantino Justino I que, em 529 d.C., fecharia em definitivo as escolas de filosofia de Atenas. Tiro de misericórdia contra um paganismo já encurralado e agonizante.

23.11.06

Un Poème Raté d'un Poète Manqué

Hoje já não mais busco
primor em verso algum.
Sobre meu poema cuspo
minh’estupidez comum.

E ele nasce do conúbio
de palavras que me vêm
banhadas no débil eflúvio
de meu espurco desdém.

22.8.06

Esses Pernósticos Agnósticos

“If only God would give me some clear sign! Like making a large deposit in my name at a Swiss bank” (Woody Allen)

MAIS UM ISMO
O termo “agnosticismo” foi criado em 1869 pelo biólogo inglês Thomas Henry Huxley, mas o conceito mais marcante do pensamento agnóstico já podia ser encontrado nos escritos de David Hume e dos empiristas ingleses sob a forma de “suspensão do julgamento diante da falta de evidências”.
Como deve se esperar de um naturalista que faz incursões pela filosofia, Huxley tinha simpatia pela cautela científica do empirismo e, como um típico pensador inglês (que não gosta de atitudes extremas), negou-se a entrar na contenda entre teístas e materialistas de sua época. Tentando evitar a imposição restritiva desses rótulos acabou criando um rótulo para si mesmo: “most of my colleagues were ‘ists’ of one sort or another; and I, the man without a rag of a belief to cover himself with, could not fail to have some uneasy feelings. So I took thought, and invented what I conceived to be the appropriate title of ‘agnostic’. It came into my head as suggestively antithetic to the 'gnostic' of Church history, who professed to know so much about the very things of which I was ignorant”. Foi assim que Huxley entrou para a história como o sujeito que deu nome à atitude que alguns filósofos já haviam tomado diante das questões metafísicas.

OS QUE ERAM E NÃO SABIAM
Professando um agnosticismo ainda inominado, Hume, em seu “Dialogues concerning Natural Religion”, sustenta que não há prova da existência de Deus nem prova de sua inexistência. Sua posição como embezerrado empirista é bastante clara: “philosophy cannot go beyond experience; and any hypothesis, that pretends to discover the ultimate truth, ought at first to be rejected as presumptuous and chimerical”. Mesmo assim, Hume não queria que sua posição fosse confundida com ateísmo, e tentou explicar (numa desatada verborréia que lhe custou várias páginas) o que Carl Sagan resumiria em: “absence of evidence is not evidence of absence”.
Já o agnosticismo inominado de Kant tem um detalhe sutil: enquanto pensadores como Hume e Huxley professam a suspensão do julgamento diante da falta de evidências, Kant acredita que a própria procura de evidências não faz sentido. Para Kant, Deus (mesmo existindo) seria incognoscível, pois um ser por definição infinito, onipotente, onipresente e mesmo assim fora do tempo e do espaço (transcendente), está totalmente além da parca capacidade cognitiva humana (limitada à finitude do tempo e do espaço – segundo a epistemologia kantiana). Se Deus não existisse, seria um erro lógico crasso tentar provar a inexistência de algo cuja realidade é incognoscível. Assim, qualquer tentativa de provar a existência ou inexistência de Deus encerra um erro lógico para Kant.

ABUNDA A FÉ DEMAIS
“I have a great love and respect for religion, great love and respect for atheism. What I hate is agnosticism, people who do not choose”. Este comentário atribuído a Orson Welles retrata bem a antipatia de muitos pelos agnósticos. Mesmo sendo acusado de “ateísmo covarde” ou “pensamento vacilante” (como tão bem observou o Dr. Plausível – ver link acima), o agnóstico legítimo e documentado considera o teísmo e o ateísmo como posições (aparentemente antagônicas) de uma mesma profissão de fé (a fé numa hipótese). Por um lado, a hipótese teísta que não apresenta nenhuma evidência convincente de um mundo espiritual. Por outro lado, a hipótese ateísta que aposta na coerência do mundo físico mesmo com o esfacelamento da lógica e a dissolução da realidade a cada descoberta da física subatômica (o que nos faz lembrar cada vez mais do imaterialismo de Berkeley). Por um lado, o silêncio divino cada vez mais sólido. Por outro, a realidade última da matéria cada vez mais insólita. Sem dúvida, para um agnóstico, as duas posições exigem um bocado de fé.

PARA PENSAR ANTES DE DORMIR: NÃO QUEIRA SER MAIS ESPERTO QUE DEUS
O sábio Pascal às vezes tinha seus momentos de pascacice. Pois não é que num desses momentos ele inventou de acabar de vez com a discórdia entre teístas e ateus? Pensou em uma aposta para o além-túmulo. Temos dois apostadores: um ateu (que aposta na inexistência de Deus) e um crente (que aposta na existência de Deus). Se Deus não existir (como aposta o ateu), os dois permanecerão em pé de igualdade após a morte (pois cessarão de existir). Mas, se Deus existir (como aposta o crente), após a morte o crente receberá a salvação e o ateu o tormento eterno. Assim, Pascal conclui que é mais vantajoso apostar na existência de Deus. O argumento (vamos, venhamos e convenhamos, seu Pascal!!!) foi lamentável. Não é à toa que suscitou em Voltaire um comentário: “cet article paraît un peu indécent et puéril”.

18.7.06

Hebetismo Hodierno ou Sofisma Moderno?

Hoje de manhã, num debate televisivo sobre o caso Suzane von Richthofen, o advogado de defesa da guria perversa, sustentando a tese de que Suzane teria sido induzida pelo namorado a matar os próprios pais, desferiu uma pergunta (que chamou de “argumentação bombástica”) ao promotor público: “se Suzane não tivesse conhecido esse rapaz, ela teria matado seus próprios pais?”.
Os entrevistadores se entreolharam com desconforto; o promotor ficou mudo por alguns instantes, talvez aparvalhado diante do forte teor argumentativo da pergunta, e num misto de desespero e raiva, sem saber o que dizer, desconversou e tentou ironizar a situação.
Que a pergunta tenha embasbacado os entrevistadores não é nada fora dos padrões da mídia brasileira. O que me surpreendeu foi o embasbacamento do promotor (do qual se espera um melhor níver curturar).
Ora trambolhos!!! Se a pergunta fosse respondida com um “não”, e se isso implicasse inculpabilidade da guria (como quer o advogado de defesa), então a mesma pergunta feita de maneira inversa (se o rapaz não tivesse conhecido a Suzane, ele teria matado os pais dela ou qualquer outra pessoa?) também teria de ser respondida com um “não” e implicaria inculpabilidade do rapaz.
Após o programa, refleti sobre o embasbacamento do promotor (causado por tão tosca argumentação) e não consegui me convencer de que advogados (apresentados pela mídia como ilustres, experientes, autores de livros sobre direito penal, e com uma clientela endinheirada) pudessem meter os pés pelas mãos diante de uma falácia tão mixuruca e pueril. Ou eu havia me tornado um perfeito urumbeba com o passar dos anos ou o bom senso do poder judiciário brasileiro havia destrambelhado de vez!!!
Mas, minha persistente esperança na razão humana me levou a crer que eu estava diante de um hermético jogo estratégico entre causídicos de peso: enquanto o advogado de defesa fingia ser um palonço fingindo perspicácia (escondendo seus verdadeiros argumentos de defesa), o promotor fingia ser um patureba fingindo tontice (escondendo seus verdadeiros argumentos de acusação). Este foi o melhor cenário que consegui conceber. Far-fetched? Quem sabe?

PARA PENSAR ANTES DE DORMIR:
A bíblia dos sofistas modernos encerra duas regras básicas: enternecer a opinião pública implica em não se mostrar por demais esperto e inteligente; e servir-se de argumentos simples, contundentes e de efeito dramático (embora completamente falsos) é a chave lógica para o obscuro labirinto do raciocínio popular.

3.7.06

Poema Pupilar

A química estudo com fé,
e nela verdades descubro:
a fórmula do gelo não é
H2O ao cubo.

Poeminha Quântico

No centro do zero
um pingo eu crio,
pois não considero
o zero um vazio.

16.1.06

Sonetinho Existencial

Quem acha que um dia
este mundo prospera
está louco ou porfia
no desvão da quimera.

Jumentais teorias
pululam nos coutos,
carcomem utopias:
sandeus estão soltos.

Insanos e indoutos
governam a guia
das leis e da arte.

O inferno é os outros,
tão bem já dizia
o estrábico Sartre.

13.1.06

O Mito que foi pelo Ralo

A idéia de que a água escoa pelo ralo em sentidos diferentes no hemisfério norte e no hemisfério sul talvez seja o mito mais conhecido e difundido em todo o mundo.
No meu curso colegial, meu professor de Física jurava de pé junto que isto realmente acontecia e que ele já o tinha testado na pia de sua casa. Já ouvi este mito ser citado em um episódio do Arquivo X (o que não me surpreendeu, pois não há nada mais anticientífico do que ficção científica), também em um episódio dos Simpsons (e eu ainda não sei se foi uma piada muito sutil ou não), também em um papel para forrar bandejas do McDonald’s (nada fora dos cânones da companhia), e (pasmem!!!) até em uma apostila de cursinho pré-vestibular. E ouvi dizer que alguns guias turísticos levam apalermados bocós (vindos do outro hemisfério) para um “turismo científico” (talvez por escassez de atrativos na cidade) e demonstram em uma pia o curioso fenômeno.
Afinal de contas, este fenômeno do ralo acontece ou não? – A resposta é: em teoria sim, na prática não!!!
Este fenômeno é chamado de “Efeito de Coriolis” (ou “Força de Coriolis”, ou “Aceleração de Coriolis”) e realmente afeta o movimento de rotação dos ventos em volta dos centros de baixa pressão e a rotação do plano de oscilação de um pêndulo. Mas, a Força de Coriolis é pequena demais para determinar a rotação da água que escoa pelo ralo.

VISUALIZANDO O INVISUALIZÁVEL
Uma maneira de visualizar o Efeito de Coriolis é começar pelo movimento de rotação de um carrossel. Em um carrossel, sentimos uma força que nos impele para fora. Esta força é chamada de “centrífuga”. Já em uma esfera (que é o caso da Terra) existem duas forças em jogo: a centrífuga e a de Coriolis.
A centrífuga nos impele para fora da Terra e tem sentido oposto à força gravitacional (que nos puxa para o centro da Terra). Esta força centrífuga tem seu valor máximo no equador e vai diminuindo até ser nula nos pólos. Mesmo no equador (onde seu valor é máximo) sua aceleração é apenas 0,3% da aceleração gravitacional, o que resulta em uma diferença muito pequena de nosso peso no equador e de nosso peso nos pólos (imperceptível para os nossos sentidos).
Por outro lado, a Força de Coriolis varia de posição conforme nossa posição no globo terrestre. Ela coincide em sentido com a força centrífuga quando estamos no equador, e é quase perpendicular à força centrífuga quando estamos nos pólos. Se estamos no equador e começamos a ir em direção ao pólo norte, a Força de Coriolis começa a nos empurrar cada vez mais para o equador e para o leste, pois ela está sempre perpendicular ao eixo de rotação da Terra e, ao mesmo tempo, perpendicular ao nosso vetor de velocidade.
Difícil de visualizar???? Bom, acontece que (quanto mais nos aproximamos do norte) a força de Coriolis começa a se inclinar cada vez mais para o leste, seguindo o vetor resultante de nossa velocidade em direção ao norte e em direção ao leste (que é o movimento de rotação da Terra), e mais para o equador (mantendo-se perpendicular ao eixo de rotação da Terra), e assim se afastando da direção da força centrífuga (que não se mantém perpendicular ao eixo de rotação da Terra quando se afasta do equador, mas mantém-se contrária à direção da força gravitacional).
Não importa para que lado está direcionada a nossa velocidade, a Força de Coriolis estará sempre em um plano perpendicular a ela e, ao mesmo tempo, em um plano perpendicular à rotação da Terra. O que resulta em uma força que nos impulsiona a mover em círculos no sentido horário no hemisfério norte. Se nos movemos do norte para o equador, a Força de Coriolis nos puxa para o oeste e para o equador (mantendo-se perpendicular ao vetor de velocidade e ao eixo de rotação da Terra), o que também resultará em um movimento no sentido horário.
Assim, a Força de Coriolis não produz nenhum efeito no equador (pois está na mesma direção da força centrífuga, onde a força centrífuga tem valor máximo) e produz máximo efeito nos pólos (pois está praticamente perpendicular à força centrífuga, onde a força centrífuga é quase zero).
Esta “tendência para o movimento em círculos” que acontece no hemisfério norte se repete no hemisfério sul só que em sentido contrário (pois o hemisfério sul seria análogo ao hemisfério norte em rotação contrária).
Este Efeito de Coriolis é um fascinante “quebra-cabeça geométrico”. Se você tiver tempo para pensar nele, faça-o.

UM IMPURRÃOZIM DI NADA
Outra coisa interessante sobre o Efeito de Coriolis é que ele depende somente da velocidade angular do globo terrestre e da velocidade do objeto em movimento sobre o globo.
A fórmula da Aceleração de Coriolis é: 2w.V’
w = sendo a velocidade angular do globo terrestre
V’ = sendo a velocidade do objeto sobre o globo
Como a velocidade angular do globo terrestre (w) é extremamente pequena (o,oooo7 rad/s), a verdadeira “força” do Efeito de Coriolis está na velocidade do objeto (V’) e na sua posição no globo terrestre. Isto quer dizer que... para grandes quantidades de moléculas de ar que estão em grande velocidade (como os ventos em torno de centros de baixa pressão e furacões) o Efeito de Coriolis é considerável perto dos pólos. Realmente as rotações destes fenômenos são contrários no hemisfério norte e no sul. Também é considerável para pêndulos de grandes dimensões, como foi demonstrado por Jean Léon Foucault (que pendurou um pêndulo de 67 metros de comprimento na cúpula de uma igreja e observou a rotação de seu plano de oscilação). Esta experiência de Foucault é uma prova efetiva da rotação da Terra. Mesmo que a Terra estivesse sempre coberta de nuvens, a experiência mostraria aos físicos que a Terra gira e que é possível calcular seu período de rotação através das oscilações de um pêndulo.
No caso da água descendo pelo ralo, o Efeito de Coriolis existe, mas é muito pequeno, já que a massa de água em questão e a sua velocidade de escoamento são muito pequenas. O Efeito de Coriolis é praticamente desprezível frente às outras forças que atuam numa pia ou num tanque, como o atrito e os efeitos causados pela forma e textura das paredes do tanque, bem como o movimento residual da água e a força gravitacional que empurra a água para dentro do ralo.

PARA OS CURIOSOS DE DOMINGO
Mesmo tendo dito tudo isso, NÃO É COMPLETAMENTE IMPOSSÍVEL ver o Efeito de Coriolis em uma pia. Só que o negócio é muito difícil: coisa para laboratórios especializados.
A água deve repousar por uma semana ou mais (para eliminar ao máximo o movimento residual da água) em uma cuba especialmente desenhada (para eliminar ao máximo interferências geométricas), e o furo pelo qual a água escoa deve ser extremamente pequeno para que a vazão seja a mais lenta possível (diminuindo ao máximo perturbações no movimento da água). Mesmo com todos estes cuidados e uma boa dose de sorte, demora horas (senão dias) para que o Efeito de Coriolis comece a provocar algum desvio sensível e sutil. E mesmo assim, você terá que repetir o experimento várias vezes para ter certeza de que o movimento rotatório observado não foi provocado por outro fator.
Nem tente!!!

PARA ANARQUIZAR DE VEZ COM A CIÊNCIA
Mas, se o que você quer mesmo é azucrinar os céticos, então quando for a uma dessas cidades onde exista a famosa placa “A LINHA DO EQUADOR PASSA POR AQUI”, pegue um pequeno tanque de água, faça um furo no fundo e ponha uma rolha. Reuna o pessoal da excursão para o “turismo científico”. Passe para o lado do hemisfério norte e puxe a rolha do tanque (com a mão por dentro!), e ao retirar a rolha imprima uma rotação a este movimento. O giro de sua mão será suficiente para fazer a água escoar pelo furo no sentido deste giro. Passe para o outro hemisfério e faça a mesma coisa, só que agora gire a rolha no sentido contrário. Não é aconselhável tentar fazer o truque na linha do equador, pois qualquer movimento de sua mão pode imprimir movimento à água.
E se você quiser esbodegar de vez com a coisa, então peça ao pessoal da excursão que comece a notar como o pessoal que vive no hemisfério norte costuma ter uma “estranha” tendência (mas que agora é perfeitamente compreensível) de repartir o cabelo no sentido contrário ao pessoal do hemisfério sul, e como o pessoal que vive perto da linha do equador costuma repartir o cabelo no meio. E para colocar aquela cerejinha que falta em todo bolo de merda, diga também que aqueles redemoinhos que nascem nos nossos cocurutos nascem em sentido contrário nos dois hemisférios, e que os “equatoriais” não os têm.

8.11.05

O Eterno Retorno a Nietzsche

NA BOCA DO POVO
Sem medo de errar, podemos dizer que Nietzsche é o filósofo mais popular entre aqueles que têm pouca familiaridade com filosofia. A explicação para esse fenômeno é simples. Nietzsche foi o único filosofo que explicitamente ofereceu um remédio para a crise espiritual que aflige o homem moderno: o niilismo.
Todo aquele que se aproxima da filosofia procurando uma resposta explícita para suas indagações existenciais, ou um sentido claro para a vida, ou uma receita para uma vida feliz, se decepciona diante do emaranhado mundo das idéias, dos diferentes modelos de pensamento, dos intricados conceitos, das limitações da lógica, dos infindáveis debates, das esmiuçadas críticas e dos jargões nada amigáveis.
Por outro lado, Nietzsche se apresenta como “profeta da cura”, escreve em estilo aforístico, dramático, panorâmico, profético, incisivo e ao mesmo tempo poético e tropológico. Não é à toa que sua filosofia tenha se propagado para além do âmbito acadêmico e passado ao ideário popular. E a filosofia de Nietzsche tem significado coisas diferentes para diferentes pessoas. Muitos vêem em Nietzsche o surgimento do pensamento nazista, enquanto outros o consideram um libertário, um cosmopolita. Para outros, Nietzsche foi o filósofo que diagnosticou a decadência e o colapso da civilização ocidental, que pressagiou as duas grandes guerras mundiais. Para outros, um ateu radical, um niilista que professava a cura para seu próprio niilismo. Um precursor da psicologia moderna. Um filósofo preocupado com a criação e transformação de valores. Um crítico severo da moral cristã. Um teísta às avessas. Um brilhante escritor que desenvolveu as potencialidades da língua alemã.
Obviamente, seu estilo nada convencional de escrever filosofia é o principal responsável por estas diversas interpretações. Mas justiça seja feita. Embora as vezes seja irritante ler Nietzsche (seu método peca por não ter a exposição sistemática encontrada em filósofos como Kant, Espinosa e Hegel – uma característica que Nietzsche fazia questão de não possuir, pois acreditava-se um reformador de valores e, consequentemente, um reformador de estilos), esse alemãozinho bigodudo teve idéias brilhantes e surpreendentes. E uma delas é a teoria do eterno retorno.

O ETERNO DÉJÀ VU
A teoria do eterno retorno, conhecida desde da antigüidade grega, é usada por Nietzsche como o derradeiro desafio para o homem moderno. Um homem que se encontra na encruzilhada entre dois tipos de niilismo. O niilismo passivo, uma constatação pessimista, uma atitude apática diante da ausência de valores e do absurdo da existência. E o niilismo ativo que procura destruir tudo e imprimir valor a nada. O niilismo que é a decorrência inevitável da “morte de Deus”, da orfandade de valores, da esperança traída. O niilismo que na época de Nietzsche começava a se mostrar nas artes, na literatura, na filosofia e na ciência. A descrença nos valores cristãos, a constatação da inexistência de Deus e, por conseqüência, da perda de todo parâmetro moral e espiritual, levava o homem a perder a crença em qualquer valor, a entrar em decadência e aniquilamento.
Foi neste contexto que Nietzsche se arrogou o papel de reformador e “profeta da transvalorização de valores”, na esperança de salvar a sociedade ocidental da decadência niilista que começava a ganhar corpo.
O conceito básico da teoria do eterno retorno é bastante simples. Se supormos que o universo é um corpo finito (possui um número gigantesco mas finito de elementos básicos) e se dado um tempo infinito, então todas as combinações possíveis deste número finito de elementos se repetiriam infinitamente. Se considerarmos o universo como um gigantesco baralho cósmico (com um número gigantesco de cartas, mas um número finito), então o número de combinações destas cartas seria finita e se repetiria infinitamente através da eternidade.
Esta hipótese (que na época de Nietzsche era escabrosa) é hoje em dia uma hipótese muito discutida na teoria do Big-Crunch. É a única hipótese que respeita a conservação de energia do universo. Um universo finito (com um número finito de elementos) poderia se expandir (através de um Big-Bang) e se contrair (através de um Big-Crunch) infinitamente, conservando sua energia. O número de combinações deste universo seria algo inimaginável, mas seria finito, e certamente teria de ser repetido infinitamente. Assim, todas as mais insignificantes variantes possíveis na vida de qualquer pessoa, na vida de qualquer animal, de qualquer planta, de qualquer átomo, de qualquer elétron, seriam vividas da mesmíssima forma eternamente.
Nietzsche descreve seu estado de estupefação e horror diante desta aterradora hipótese. Nada caminha em linha reta. Nada tem um começo ou um fim. Nada tem um princípio ou um objetivo. Tudo é um infinito e gigantesco ciclo de repetições, de combinações finitas. Sempre estamos em um ponto intermediário deste ciclo. Nunca chegaremos a um fim. Nunca houve um começo. Estamos eternamente condenados a repetir exatamente o que eternamente estamos a repetir.
Não é à toa que a filosofia de Nietzsche toma proporções oceânicas depois da teoria do eterno retorno. Como podemos não cair no desespero niilista depois desta abismal constatação? Talvez seja isto que levou Heidegger a afirmar que Nietzsche foi o niilista mais contundente dentre todos os niilistas: na esperança de “curar a civilização de um niilismo decadente” cria uma hipótese niilista ainda mais aterradora e inescapável.

PARA PENSAR ANTES DE DORMIR
Uma interessante frase de Schopenhauer: quanto mais a ciência avança e descobre os mistérios do universo, mais será sentida a necessidade de uma metafísica.

17.10.05

Nossa Anã Filosofia

O DUVIDADOR DO PASSADO
Aporrinhado com o oba-oba metafísico da filosofia escolástica que persistia em sua época, Descartes se avexa a pôr ordem na casa e afirma que a filosofia precisa urgentemente de um método claro, simples e sensato como o método matemático que tanto admirava. Para Descartes, a filosofia deveria renovar-se, esquecer tudo o que fora dito antes e partir de princípios bastante simples para chegar aos mais complicados, e incansavelmente “pesar e medir” cada princípio certificando-se de que eram confiáveis: assim como um Galileu que transformava coisas incomensuráveis em mensuráveis.
Então, Descartes chega à conclusão que esse método deveria partir de pelo menos um princípio rigorosamente indubitável. E para chegar a esse princípio, afirma a sua “dúvida total”: devo duvidar de tudo, mesmo da existência de meu próprio corpo e do universo que me cerca. Ninguém pode me garantir categoricamente que o universo diante de meus olhos não seja uma ilusão de cabo a rabo. A “dúvida total” de Descartes não se resumia simplesmente a um ceticismo cego e inconseqüente, era antes um ceticismo “provocado”, um método de refutação que o ajudaria a chegar a uma “evidência verdadeira” (para Descartes, existiam também “pseudo-evidências”).
Para acirrar ainda mais a sua “dúvida total”, Descartes chega mesmo a criar a hipótese do “malin génie” (gênio do mal), um personagem que haveria criado o universo apenas para nos enganar, para dissimular toda a verdade. Esse “malin génie” poderia ter colocado um universo totalmente falso diante de nossos olhos. Qualquer um que tenha lido as “Meditações” de Descartes certamente se perguntou se os roteiristas do filme Matrix também não o fizeram.
Obviamente, a criação do “malin génie” era apenas mais um método de refutação lucubrado por Descartes para pôr à prova seu princípio indubitável, sua evidência verdadeira. Como posso ter certeza de alguma coisa se tudo pode ser falso e ilusório? Com certeza, tenho todas as razões para duvidar de tudo, no entanto, não posso duvidar da existência deste “ser que duvida” que sou eu. Se existe algum fato do qual tenho absoluta certeza é que duvido de tudo: sou um “ser pensante que duvida”. Meu corpo pode ser uma ilusão, mas o ser que nele pensa (que sou eu) tem certeza que existe. E assim, duvidando de tudo e de todos, Descartes chega ao seu princípio indubitável, o célebre “cogito, ergo sum”.
Segundo Descartes, a nossa única certeza irrefutável é que “pensamos, por isso existimos”. E para pôr à prova seu princípio indubitável, Descartes tenta negá-lo (colocar em dúvida a existência de seu próprio ser pensante), mas logo percebe que a negação deste princípio o leva a uma contradição. Isto é, posso afirmar que tudo no universo é verdadeiro ou falso (em nenhum dos casos estaria caindo em contradição), mas não posso duvidar da existência de meu próprio ser pensante sem cair em contradição. Se afirmo que “minha consciência se engana sobre a existência dela mesma”, então estou afirmando que “algo se engana”. Ou melhor, estou afirmando que “existe algo que se engana”. Ou melhor, estou afirmando a existência de minha consciência como “algo que produz a ação de se enganar”. Se minha consciência não existisse, ela não poderia se enganar (produzir uma ação como sujeito). Uma contradição, segundo Descartes. Assim, seu “cogito, ergo sum” não pode ser posto em dúvida, é um princípio irrefutável.

DE GENTE AINDA MAIS DUVIDADORA
Logo, logo, muita gente duvidou da dúvida de Descartes e percebeu a falácia do cogito cartesiano: é necessário pensar para existir, e para pensar é necessário existir.
O cogito cartesiano pode ser entendido como uma proposição que Kant chamou de “analítica”: “dado x, logo x”. Isto é, a proposição analítica é aquela na qual o “conceito do predicado” está incluso no “conceito do sujeito”. Ou melhor, se afirmo que “dado ALGO, logo ALGO EXISTE”, tenho que admitir que a própria essência de um sujeito (ALGO) é existir (um sujeito tem por essência existir). Assim, o predicado (que faz declarações sobre a existência ou não existência desse sujeito) está incluso na própria essência desse sujeito (que é de existir). Desta maneira, a proposição analítica só pode ter duas soluções: ou afirma a essência de alguma coisa (sendo uma proposição vazia), ou nega a essência de alguma coisa (criando uma contradição).
Se sei que a essência de um cavalo é “ser quadrúpede”, e se afirmo que “dado um cavalo, logo um quadrúpede”, então estou produzindo uma proposição vazia: seria o mesmo que dizer “dado um cavalo, logo um cavalo” (o predicado está incluso na essência do sujeito). Negá-la seria uma contradição: “dado um cavalo, logo um não-quadrúpede” (dado um cavalo, logo um não-cavalo).
O cogito cartesiano parece à primeira vista sensato porque ele se serve de uma coisa bizarra chamada “consciência reflexiva”: uma coisa que consegue atestar a existência de si mesma. Isto é, a consciência reflexiva é essencialmente algo AUTO-REFERENCIAL (ela trabalha com “loopings lógicos”). E qualquer coisa auto-referencial só pode fazer duas coisas: afirmar-se a si mesma DE FORMA TAUTOLÓGICA (“existo” – sei que existo porque estou afirmando minha existência, se não existisse não poderia afirmar minha existência), ou negar-se a si mesma DE FORMA CONTRADITÓRIA (“não existo” – se não existisse não poderia afirmar minha inexistência).
Assim, ao contrário do que acreditava Descartes, a consciência reflexiva é algo injustificável, pois só consegue produzir tautologia ou contradição. E a tautologia é um looping lógico sem saída: existo porque estou afirmando que existo, e se estou afirmando que existo é porque existo. Seria o mesmo que afirmar que 10 é igual a 5+5 porque a soma de 5+5 é igual a 10.

A AUTO-REFERÊNCIA COMO CONTRADIÇÃO E PARADOXO
As frases auto-referenciais têm uma característica intrigante: ou são contraditórias ou paradoxais.
Uma afirmação paradoxal é dizer que uma coisa “é” e “não é” ao mesmo tempo, que alguém é velho e jovem ao mesmo tempo, que estou sentado e não estou sentado, que estou mentindo e não estou mentindo. Um exemplo clássico de paradoxo é o “Paradoxo dos Gêmeos” que surgiu logo após a publicação da Teoria da Relatividade Restrita. Se o Pedro se move perto da velocidade da luz em relação ao seu irmão Joaquim, qual dos dois envelheceria mais cedo (sendo que o tempo passa mais devagar para objetos que estão em movimento)? Para Joaquim, Pedro é que estaria se movendo. E para Pedro, Joaquim é que estaria se movendo. O paradoxo é que tanto Pedro quanto Joaquim envelheceriam mais cedo do que o outro. No entanto, este problema foi resolvido após a publicação da Teoria da Relatividade Geral que incluía o conceito de aceleração.
Já a contradição acontece quando um dos elementos de meu discurso contradiz uma afirmação anterior: quando afirmo que todos os filmes italianos são bons, mas que alguns não prestam (o elemento “alguns não prestam” está em conflito com “todos são bons”. Se alguns não prestam, então todos não podem ser bons. Um dos elementos tem de ser modificado para que o discurso seja coerente). Da mesma maneira, se afirmo que “dado um cavalo, então um não-cavalo”, então o segundo elemento de minha proposição está em conflito com o primeiro (algo tem de ser modificado para que não haja conflito). No paradoxo apenas um elemento afirma e nega-se a si mesmo ao mesmo tempo. No paradoxo não há como modificar os elementos, pois o paradoxo é insolúvel, mas a contradição pode ser resolvida mudando os elementos que estão em conflito. Assim, a negação do cogito cartesiano é uma contradição e não um paradoxo. Se ela fosse um paradoxo seria insolúvel mesmo na afirmativa ou na negação.
É muito difícil criar um discurso paradoxal em nosso dia-a-dia, mas os discursos contraditórios acontecem com muito mais freqüência do que imaginamos. Como o discurso cotidiano é muito mais movido pelas emoções do que pela razão, é muito fácil nos esquecermos do que havíamos dito antes e entrarmos em contradição.
Vejamos alguns exemplos:

“TODOS OS HUMANOS SEMPRE MENTEM”
proposição verdadeira: TODOS os humanos sempre mentem
Então: eu minto (pois sou humano) que todos os humanos sempre mentem
Então: PELO MENOS UM humano não mente sempre
CONTRADIÇÃO: TODOS mentem (o conjunto todo) x PELO MENOS UM não mente (um elemento desse conjunto está em conflito com o conjunto)
proposição falsa: pelo menos um humano não mente sempre
Então: eu minto (produzo uma frase falsa), e como minha frase é falsa, então pelo menos um humano não mente sempre
CONCLUSÃO: a frase tem de ser falsa para não cair em contradição

Neste exemplo, podemos observar que se considerarmos a proposição como falsa ela é coerente. A contradição está em fazer uma auto-referência ao próprio ato de estar mentido (na própria proposição produzida), mas além da auto-referência à própria mentira também existe uma outra referência a um grupo. Se você faz parte de um grupo de amigos e diz “todas as pessoas desse grupo são mentirosas”, na verdade você está fazendo um elogio ao grupo, pois se você (como um membro do grupo) é mentiroso, então a sua frase é uma mentira, logo pelo menos um membro deste grupo não é mentiroso.
Agora vejamos outro exemplo que elimina a questão do grupo:

“EU ESTOU MENTINDO”
proposição verdadeira: estou mentindo
Então: estou mentindo que estou mentindo = não estou mentindo
PARADOXO: estou mentindo e não estou mentindo ao mesmo tempo.
proposição falsa: não estou mentindo
Então: não estou mentindo que estou mentindo = estou mentindo
PARADOXO: não estou mentindo e estou mentindo ao mesmo tempo.

Neste exemplo, existe apenas uma auto-referência ao ato de estar mentindo (não existe nenhuma outra referência a um grupo). O paradoxo surge mesmo quando a proposição for falsa ou verdadeira. O paradoxo acontece porque somente um elemento está em jogo na proposição: eu. Eu faço referência a mim mesmo através da questão de estar mentindo.
Nestes dois exemplos, podemos observar que não há como resolver um paradoxo, pois não há elementos em conflito, não há como modificá-los (a sua afirmativa e a sua negação nos levam ao mesmo paradoxo). Já a contradição, podemos resolvê-la modificando alguns elementos para torná-la coerente.

O CASO GÖDEL
As frases auto-referenciais são uma pedra no sapato de qualquer lógica. Muitos filósofos chegaram mesmo a cogitar que a “auto-referencialidade” seria apenas uma “ilusão semântica” deste intricado mundo da linguagem humana.
No entanto, na virada do século passado, um matemático alemão (David Hilbert) desafiou outros matemáticos a demonstrarem a coerência de um sistema de axiomas na esperança de sacramentar a matemática como uma ciência verdadeiramente exata e lógica. Para a sua surpresa, um matemático austríaco (Kurt Gödel) respondeu ao seu desafio e demonstrou a incompletude de qualquer sistema utilizando-se puramente da lógica formal. Gödel demonstrou que proposições auto-referenciais existem realmente na lógica formal e na aritmética, provocando a incompletude e a incoerência de qualquer sistema. O que Gödel descobriu, através de uma idéia simples e genial, foi a possibilidade de expressar PARADOXOS em linguagem matemática.
A grosso modo, o “primeiro teorema da incompletude” de Gödel pode ser descrito da seguinte maneira:
Imagine que temos um sistema teórico (uma teoria T) tal que só podemos com T demonstrar asserções verdadeiras (esta é a exigência de Hilbert para a coerência de um sistema). Então, podemos inserir em T a seguinte asserção que chamaremos de A:
“ESTA ASSERÇÃO É INDEMONSTRÁVEL EM T”
Então, podemos tirar as seguintes conclusões:
a) se a asserção A for verdadeira (a teoria T exige apenas asserções verdadeiras), então é indemonstrável em T.
b) se a asserção A não for verdadeira (e portanto demonstrável em T), então não pode ser demonstrável em T (pois T só demonstra asserções verdadeiras, e a asserção A não é verdadeira).
Assim, podemos concluir que a asserção A (mesmo sendo verdadeira ou falsa) é indemonstrável em T (o que caracteriza um PARADOXO). Esta total “indemonstrabilidade” da asserção A em T é o que caracteriza a incompletude da teoria T, pois existe nesta teoria pelo menos uma asserção que (mesmo sendo verdadeira ou falsa) não pode ser demonstrável. Chamamos a teoria T de “incompleta” porque a asserção A só pode ser demonstrável fora de T. É necessário buscar fora da teoria T a demonstração de pelo menos uma de suas asserções.
Parece simples quando colocado em palavras, mas a genialidade de Gödel foi ter expressado tudo isso em linguagem matemática. Além do exemplo acima, Gödel demonstra no seu “segundo teorema da incompletude” (com uma matemática ainda mais complexa) que: “se uma teoria T é consistente, T é incapaz de demonstrar sua própria consistência”.
Ninguém antes de Gödel acreditava que a auto-referência seria uma realidade matemática e lógica, ou que paradoxos realmente existissem na matemática.

CONCLUSÃO INCONCLUDENTE
Disso tudo só podemos tirar uma conclusão: do cogito cartesiano aos teoremas de Gödel só podemos dizer que existem mais mistérios na lógica do que possa imaginar nossa anã filosofia.

16.10.05

Cristo Hipercubo

Estou muito longe de ser fã de Salvador Dalí. No entanto, pelo menos um de seus quadros pode ser considerado incontestavelmente uma obra genial: “Christus Hypercubus”.
A história toda começa com um imaginoso matemático inglês chamado Charles Howard Hinton que ficou famoso como “o homem que viu a quarta dimensão do espaço”. Hinton era um sujeito obcecado por objetos quadrimensionais e passou toda sua vida tentando criar diferentes métodos para visualizá-los.
Um dia Hinton teve uma idéia bastante original: se existissem seres inteligentes que habitassem um mundo bidimensional, como nós (seres tridimensionais) poderíamos comunicar a idéia de tridimensionalidade a estes seres? Hinton imaginou uma folha de papel (onde habitariam os bidimensionais) e um cubo sobre esta folha. Os bidimensionais apenas veriam um quadrado sobre a folha (o que seria a projeção do cubo sobre ela). Mas, se desmembrássemos o cubo sobre o papel, os bidimensionais veriam seis quadrados formando uma cruz (um quadrado no centro, um quadrado acima, outro a direita, outro a esquerda, e dois abaixo). E assim poderíamos informar aos bidimensionais que os seis quadrados formando uma cruz eram o desmembramento de um cubo em duas dimensões, e lhe pediríamos que fizessem um esforço para reconstruí-lo mentalmente em três dimensões. Obviamente os bidimensionais não conseguiriam visualizar o cubo, mas seu desmembramento sobre o papel seria a única forma de comunicar a trimensionalidade de nosso mundo aos bidimensionais.
Da mesma maneira, Hinton imaginou seres quadrimensionais tentando se comunicar com o nosso mundo tridimensional, e chegou à conclusão de que o desdobramento de um “cubo quadrimensional” (um hipercubo) no nosso mundo seria uma cruz formada de oito cubos (como pode ser visto no quadro de Dalí). Obviamente este hipercubo não pode ser visualizado: é impossível visualizar como estes oito cubos poderiam ser dobrados para formar um hipercubo, da mesma forma como os bidimensionais não conseguiriam visualizar como os seis quadrados poderiam ser dobrados para formar um cubo. No entanto, uma pessoa de um mundo quadrimensional poderia “erguer” os cubos de nosso mundo tridimensional e “dobrá-los” para formar um hipercubo. Nossos olhos testemunhariam um evento espetacular: veríamos os cubos desaparecerem, deixando apenas um único cubo no nosso mundo (a projeção do hipercubo em nosso mundo tridimensional). A mesma coisa aconteceria para os bidimensionais: quando erguêssemos cada ponta do cubo para montá-lo em três dimensões, os bidimensionais veriam os quadrados desaparecerem de seu mundo, deixando apenas um quadrado (que seria a projeção de nosso cubo no papel).
Este conjunto de oito cubos que Hinton concebeu foi amplamente anunciado em todo tipo de revista e até mesmo “utilizado” em sessões espíritas. Muitos afirmavam que, meditando sobre os oito cubos, era possível ter vislumbres da quarta dimensão e portanto do mundo dos espíritos. Alguns até mesmo afirmaram ter conseguido a incrível façanha de visualizar a montagem do hipercubo e assim se comunicar com o mundo dos mortos. Infelizmente, estas pessoas de inigualável poder mental nunca deixaram sequer uma linha descrevendo como esta montagem seria possível.
Mas, o que importa em tudo isso são as fascinantes sugestões simbólicas do quadro de Dalí. Gala (a esposa de Dalí) pode ser vista ao pé da cruz hipercúbica (tomando o lugar da mãe de Cristo nos quadros tradicionais da crucificação, ou talvez de Maria Madalena), e o próprio Cristo é representado através do corpo imaculado (sem chagas) de um homem. O corpo rijo e tenso do Cristo se contorce de dor, mas não esta preso por cravos à cruz hipercúbica (seu corpo flutua dentro dela).
O quadro de Dalí é carregado de significados. Principalmente os possíveis significados das intrigantes sugestões de um extenso jogo de DUALIDADES: o muito claro do primeiro plano (aquilo que se oferece de perto à visão) e o muito escuro do fundo (o mistério que está além da visão); a nudez do Cristo (o mundo da espiritualidade e da inocência) e as vestes excessivas de sua mãe (o mundo do pecado e da vergonha); sua mãe pesadamente plantada no chão (a materialidade) e o Cristo flutuando no espaço (a espiritualidade); a mãe que olha para o Cristo (para o que está perto e claro) e o Cristo que olha para o escuro vazio (para o mistério que está além de nossa visão); a área do céu (onde se encontra o Cristo) bem maior do que a área do chão (onde se encontra sua mãe); a mão flácida de sua mãe (sem expressar sofrimento) e as mãos contorcidas do Cristo (expressando sofrimento); a posição calma e amena de sua mãe e a posição rija do Cristo; o elemento religioso (o Cristo) e o elemento científico (o hipercubo); a cruz plana (um elemento bidimensional) onde Cristo foi crucificado e a cruz de cubos (um elemento tridimensional) onde Cristo se “dobrará” em espírito; o grande (o espiritual) e o pequeno (o mundano), pois o tamanho do corpo do Cristo é duas vezes maior do que o de sua mãe.
Tudo isso sugere claramente a existência de DOIS MUNDOS bastante distintos. E esta existência de dois mundos, de duas dimensões distintas (da quarta e da terceira dimensão, do mundo espiritual e do mundo físico), é fortemente argumentada pela presença do hipercubo como a cruz de Cristo. O hipercubo sugere os “desdobramentos” (as revelações) do mundo espiritual (da quarta dimensão) em nosso mundo físico (da terceira dimensão). O desdobramento da dor espiritual em dor física (a dor física como projeção da dor espiritual em nosso mundo); o Deus, ente do mundo espiritual, da quarta dimensão, que se desdobrou em carne e se fez homem (o Cristo como a projeção de Deus em nosso mundo, como revelação do mundo espiritual em nosso mundo, como tentativa de comunicação entre duas dimensões quase incomunicáveis).
A nossa impossibilidade de visualizar um hipercubo montado na quarta dimensão se apresenta no quadro como a nossa impossibilidade de visualizar o mundo espiritual. O desdobramento do hipercubo em nosso mundo (como oito cubos em forma de cruz) apenas nos enche de perplexidade e nem sequer conseguimos esboçar a menor idéia de como ele seria montado. Da mesma forma, a presença de Cristo em nosso mundo nos enche de perplexidade e nem sequer conseguimos compreender como seria o mundo espiritual do qual ele seria a projeção.
Sem dúvida alguma, este quadro de Dalí é uma das mais belas expressões do mistério que envolve a impossibilidade de comunicação entre dois mundos incompatíveis.
Mas, quem conhece um pouco de Dalí sabe muito bem que por trás daquele bigodinho infame existia um macromaníaco, e não seria de se espantar que ele tivesse o topete de se retratar como “O Próprio”. E aí teríamos mais uma dualidade: a Paixão de Cristo pela humanidade (um relacionamento espiritual) e a paixão entre Dalí e Gala (um relacionamento mundano, sendo Maria Madalena representada por Gala e Cristo por Dalí). Uma pessoa provocadora e sedenta por manchetes estardalhantes, como era Dalí, provavelmente teria pensando nesta última possibilidade.

As Razões Impuras (ou a Gênese do Preconceito)

O QUE É E O QUE DEVERIA SER
Não há nenhuma relação lógica entre “o que é” e “o que deveria ser”. Não há nenhuma ligação racional entre a realidade objetiva (aquilo que é) e uma proposição (aquilo que deveria ser).
A simples constatação de uma realidade objetiva (“o céu é azul”, por exemplo) não necessariamente nos induz a produzir uma proposição (“o céu deveria ser amarelo”, por exemplo). Somente a constatação de uma “realidade problemática” (“a criminalidade está aumentando”, por exemplo) nos induz a uma proposição (“devemos construir mais cadeias”, por exemplo). Mas, mesmo assim não há como deduzir logicamente uma proposição (seja ela qual for) do fato que a originou.
É desnecessário dizer que a “realidade problemática” já se apresenta como “algo que deve ser modificado” (como algo que pede uma proposição), e o simples fato dela se apresentar como algo “problemático” já mostra seu caráter puramente SUBJETIVO:
- “O céu é azul, então ele deveria ser amarelo”.
- “Você está ficando gordo, então deveria comer mais”.
- “Você está sem dinheiro, então deveria assaltar alguém”.
Ninguém pode me convencer que minhas conclusões acima são ilógicas ou irracionais, pois tais proposições não são baseadas na lógica, no raciocínio, ou na constatação de um fato, são apenas a expressão de um SENTIMENTO: sinto que o céu deveria ter a cor amarela, pois a cor amarela me agrada; sinto que você deveria comer mais, pois acho uma pessoa gorda bonita. Não há nenhuma irracionalidade em achar que o céu deveria ser amarelo, ou que uma pessoa gorda é bonita. As coisas são como são (objetivas), e não há nada de irracional no fato delas serem como são. Querer que as coisas sejam diferentes não é um ato de racionalidade, é antes um sentimento.
Se você assalta outra pessoa induzido pelo fato de não ter dinheiro, não é condenado por ser irracional. Aliás, ninguém é condenado por produzir um ato irracional. Aqueles que criam a lei “roubar é crime” não o fazem fundamentados na idéia de que “roubar é um ato irracional, por isso não deve ser cometido”, mas sim na idéia de que “roubar é um ato de injustiça, de crueldade contra alguém”. A criação de uma lei é instigada por um sentimento, e não por uma conclusão lógica ou racional. As pessoas são condenadas por produzirem atos cruéis: atos que ferem o nosso sentimento (nossos postulados morais) e não a nossa racionalidade. Quando um louco é inocentado após ter cometido um crime, não é inocentado por ser irracional, mas por não estar no controle de seus sentimentos.
Não há nenhuma irracionalidade no ato de matar, por exemplo. Não há justificativa racional para proibir este ato. Matamos animais todos os dias e não somos condenados por isso. A lei não entende como “cruel” a matança de animais, embora muita gente discorde disso.

POSTULADOS MORAIS
A total desvinculação entre “fatos” (a percepção da realidade objetiva) e “valores” (nossos sentimentos em relação a um fato objetivo) já foi amplamente comentada por Hume e Kant. Os dois filósofos notaram que o “mundo dos valores” (a ética, a moral, as leis e tudo aquilo que guia a nossa conduta diante do mundo) não pode ser deduzido da mera observação de fatos objetivos. Não há valores embutidos na realidade objetiva. O “mundo dos valores” nasce do sentimento humano em relação à realidade. E a expressão concreta de nossos sentimentos em relação à realidade se apresenta sob a forma de “postulados morais” (lembre-se que um postulado não precisa de justificativa, não é demonstrável).
Quando produzo um postulado moral, por exemplo, “não matarás”, não estou me apoiando em um raciocínio lógico ou na constatação de um fato, estou me apoiando em um sentimento: reconheço em outra pessoa um ser igual a mim e me simpatizo e me identifico com sua situação. Não quero para ela o que não quero para mim.

SENTIMENTO versus RAZÃO CRÍTICA
Olhando a história podemos perceber que o ser humano é essencialmente um ser “sentimental”: percebe o mundo ao seu redor através de seus sentimentos. Foi o que Lévi-Strauss chamou de “pensamento mítico”: um pensamento organizador da realidade que é movido por sentimentos em relação a essa realidade. O início da civilização humana pode ser descrito como movido puramente pelo pensamento mítico. A criação das leis e da conduta ética e moral não surgiram com o desenvolvimento do pensamento científico (da razão crítica, experimental e especulativa), mas com o surgimento do pensamento mítico. Isto prova que os postulados morais nada têm a ver com o raciocínio crítico ou a lógica, mas sim com o sentimento humano em relação a sua realidade, com sua vontade de modificar esta realidade.
Já o pensamento científico começa a dar seus primeiros passos na Grécia, e parece até hoje em dia não ser uma coisa natural ao ser humano. Mesmo hoje, quando pretensiosamente acreditamos que a racionalidade impera, o pensamento científico é ensinado e aprendido a duras penas nas escolas. O raciocínio, a lógica, a matemática, a mera descrição de fatos parecem ser habilidades que reclamam um esforço supremo. Um mero vacilo e descambamos para infundados julgamentos, preconceitos e superstições.
A história nos mostra que sempre houve uma “resistência moral” à atitude científica. Não é à toa que pensadores como Freud, Marx e Darwin ainda são espinafrados hoje em dia: suas constatações ainda vão de encontro a vários “sentimentos morais” que vigoram no presente. Se a teoria da gravitação de Newton envolvesse alguma controvérsia moral ou política, certamente estaria sendo contestada até hoje.
Sem dúvida, o pensamento científico pode modificar nosso sentimento em relação ao mundo, pode reposicioná-lo, criar novos conceitos, novas visões da realidade. No entanto, é de pouca serventia quando nossas decisões morais estão em jogo. O pensamento científico pode nos ajudar a entender a estrutura da realidade objetiva (aquilo que é), mas não pode nos dizer que postulados criar em relação a essa realidade.

CLASSIFICAÇÃO DE POSTULADOS
Nossa relação “sentimental” com o mundo tanto pode ser guiada por leis morais quanto por aquilo que chamamos de “preconceito”. Tanto o preconceito quanto a lei moral não vêm de nossa constatação da realidade objetiva, mas de nosso sentimento em relação ao mundo.
Na história humana, preconceito e lei moral sempre estiveram emaranhados e indistintos, e a distinção entre um e outro sempre foi e sempre será um ato de julgamento de valores (um sentimento). Uma atitude que no passado poderia ser compreendida como “moralmente correta” hoje pode ser rotulada de “preconceito”.
Postular que “todos os humanos são iguais perante a lei” é expressar um sentimento em relação à espécie humana, é ter vontade, ter intenção, ser movido por um sentimento de como as coisas deveriam ser. Postular que “alguns humanos são superiores a outros perante a lei” é também um sentimento em relação à espécie humana e à sociedade. Nenhum dos dois postulados pode se dizer fundamentado na lógica, no raciocínio ou na constatação de fatos. Querer que a lei seja igualitária para todos ou apenas para alguns não encontra nenhuma justificativa na razão. São apenas expressões de nossos sentimentos. Classificar um postulado de “lei moral” e outro de “preconceito” é também um sentimento.
A própria idéia de “preconceito” surge quando a idéia de IGUALDADE se torna amplamente popular. A idéia de “igualdade de direitos”, que um dia foi criada para garantir a convivência pacífica SOMENTE entre os gregos bem-nascidos, pouco a pouco expande seus limites através da história, até desembocar nos dias de hoje com conceitos de igualdade cada vez mais abrangentes: igualdade de direitos entre as raças, entre os sexos, entre as classes sociais, etc.
No entanto, o conceito de igualdade pode se tornar mais abrangente ou mais restritivo toda vez que embates sociais vêm à tona e se tornam evidentes. A esta “expansão” do conceito de igualdade chamamos de “conquistas morais”, e a este “encolhimento” do conceito de igualdade chamamos de “preconceitos”. Basta notar que toda idéia tida como “conquista moral” tem a particularidade de abarcar mais coisas para dentro de seu “manto igualitário”: a boa nova de Jesus foi considerar os ímpios e os crédulos, os pecadores e não-pecadores iguais perante Deus. Por outro lado, toda idéia tida como preconceituosa tem a particularidade de expelir mais coisas para fora de seu “manto igualitário”. Afinal, o preconceito se caracteriza como a afirmação da superioridade ou inferioridade de alguma coisa (isto é, torna as coisas iníquas). Assim, todo preconceito é visto como algo “injusto”, pois todo ato de justiça ou injustiça é avaliado pela abrangência de sua eqüidade. Enquanto a justiça procura aumentar a extensão de seu manto igualitário, o preconceito faz o caminho inverso, e por isso é visto como “injusto”.

O PRECONCEITO NOSSO DE CADA DIA
Jesus disse: “jogue a primeira pedra aquele que dentre vós não for pecador”. Certamente teria dito: “...aquele que dentre vós não for preconceituoso” (se a idéia de preconceito existisse na sua época). Para Jesus, o reconhecimento de nossas culpas (como eternos pecadores que somos) é o primeiro passo para a nossa absolvição. De maneira análoga, o reconhecimento de nossos preconceitos (como eternos preconceituosos que somos) é o primeiro passo para restringi-los.
A pessoa que se diz “sem preconceitos” é aquela que está mais propensa a praticá-los, pois pretensiosamente acredita que conduz seu julgamento de valores através da lógica e da razão, e por isso seus preconceitos sempre estão encobertos pela neblina da “justificativa factual”. E isto é uma coisa estrambótica, pois as pessoas “sem preconceitos” são as que estão mais propensas a criar “provas factuais” para justificar seus mais ululantes preconceitos.
E não é difícil encontrar alguém que tenha várias “provas factuais” para justificar, por exemplo, que a mulher é mais emotiva do que o homem, e portanto não é aconselhável colocá-la em cargos de direção (pois estes cargos exigem frieza e equilíbrio), ou que elas dirigem mal, pois não existem mulheres competindo na Fórmula 1.
Estas pessoas mal percebem que é possível encontrar “provas factuais” para justificar praticamente qualquer coisa. Posso, por exemplo, “provar” que a raça negra é infinitamente superior à raça branca, simplesmente avaliando a produção musical de nosso século e do século passado ou a performance dos negros nos esportes. Posso também, por exemplo, “provar” que os anões são indivíduos muito mais honestos do que as pessoas de estatura mediana, simplesmente analisando a porcentagem de anões que cumprem pena de prisão. Posso criar uma infinidade de “provas factuais” para justificar praticamente qualquer coisa, pois no ato de separar os fatos que me servem dos fatos que não me servem sou guiado pela minha intenção de julgar (e julgar é uma expressão de sentimentos).
Os preconceitos “sem ibope”, como diria o benemérito Dr. Plausível (veja seu link a direita deste blog), são os mais praticados em nosso dia-a-dia, e são os que mais estão encobertos pela neblina da “justificativa factual”. O preconceito contra a feiura e a burrice (considerar uma pessoa inferior a outra através da avaliação subjetiva de sua beleza ou inteligência) é praticado diariamente. Há um número enorme de preconceitos que nunca chegaram a ser alardeados pela mídia ou sequer percebidos pelas pessoas.
A natureza humana parece estar sempre pronta para imprimir iniqüidade em tudo, e tanto que chega mesmo a ser preconceituosa na própria avaliação de seus preconceitos (fato observado pelo Dr. Plausível). Chega mesmo a qualificar alguns preconceitos como dignos de reprovação e outros não. O preconceito contra os deficientes físicos (5% da população?) é digno de reprovação, mas contra os feios (90% da população?) não é. Por que o preconceito contra as minorias é digno de reprovação e o preconceito contra a maioria não? (fato também observado pelo Dr. Plausível).
Diante destas constatações, sobram-me razões para conclamar: FEIOS E BURROS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!

9.10.05

Indagações Inteligentes?

O conceito de inteligência sempre me deixou encafifado. Ainda mais quando vejo pulular testes que se arrogam a capacidade de quantificá-la. O mais interessante de tudo isso é que esses testes dependem da inteligência de uns (dos que produziram os testes) para quantificar a inteligência de outros (dos que se submetem aos testes). Se o método de quantificação da inteligência tem de ser concebido por uma inteligência, então qual inteligência teria a autoridade de julgar a outra? Se um teste se diz capaz de quantificar a inteligência, então teríamos de criar um método para quantificar a “inteligência” deste teste, e outro para quantificar a “inteligência” do método, e assim ad infinitum.
Parece-me no mínimo estranho que a inteligência tenha a capacidade de quantificar sua própria natureza (quantificar-se a si mesma). Como a inteligência pode julgar a qualidade de um ato de inteligência? Se a inteligência se acha menos inteligente quando descobre que erra e mais inteligente quando descobre que acerta, então como pode saber se seus acertos não são erros que ainda não descobriu, ou se seus erros não são acertos que ainda não percebeu? Como a inteligência pode saber que não é inteiramente burra e que sempre cometeu erros que nunca percebeu?
Será que os criadores de testes de inteligência não são suficientemente inteligentes para perceber isto?

4.10.05

O Sentido da Existência


Qualquer sujeito que já refletiu, com a mais desapaixonada boa-fé, sobre sua própria existência e a existência do universo já sentiu um súbito desconforto como se estivesse à beira de um penhasco olhando assombrado para o infinito abismo da lógica. Bertrand Russel definiu esta estupefação como um delírio de dúvidas diante da inconsistência da realidade. Uma realidade que se nos apresenta multifacetada, complexa, misteriosa e muitas vezes obstinadamente incoerente e ilusória.
Apesar de diariamente estarmos envolvidos em nossos projetos de vida e afirmarmos haver sentido e razão em todos os nossos atos, no fundo temos consciência da estonteante absurdidade da existência. Como um ser consciente de sua finitude é capaz de criar tantos sentidos para seus atos diante da irredutível insensatez do próprio ato de existir? Há algum desígnio para a existência ou somos apenas um hiato entre dois absolutos nadas? Como devemos conduzir nossas vidas se não sabemos porque e para que existimos? Toda história humana parece se resumir a um extraordinário esforço em imprimir sentido ao manifesto caos lógico que nos cerca.
Mesmo que aceitemos a existência de um criador, sua criação parece não ser governada pelas regras da mais límpida sensatez. Tudo parece estar envolto em infinita complexidade, contradição e mistério. Todo aquele que vê sentido na criação, é porque ainda não se fez um número suficiente de perguntas, ou ainda não se deu conta da magnitude da complexidade dessas questões.
Dizer que pensar sobre a existência é criar um “cemitério de hipóteses” é no mínimo justo. No entanto, não podemos esquecer que é sobre este cemitério que estão alicerçados todos os nossos atos, todas as nossas leis, toda a nossa sociedade e toda a ciência.
Existem basicamente quatro hipóteses diante da existência:

A HIPÓTESE NIILISTA
A hipótese niilista nos diz que a existência não tem nenhum sentido: não há nenhum projeto para o universo nem para o ser humano. O universo existe porque não há outra maneira, não há como não existir: o Nada não faz sentido, nada pode ter vindo do Nada, assim alguma coisa necessariamente TEM DE EXISTIR. Para o niilismo, o Nada é apenas uma concepção equivocada que só pode ter surgido do intrincado labirinto de contradições da razão humana. Isso parece ser correto, pois é impossível para o pensamento humano conceber ou pensar sobre o Nada. Sempre que imaginamos o Nada, damo-lhe características espaciais (um vazio sem fim) ou características temporais (existe antes ou depois de alguma coisa). Kant nos chamava atenção para o fato de que é impossível para a razão humana conceber qualquer coisa fora do espaço e do tempo: o espaço-tempo faz parte de nossa estrutura mental a priori.
Se adotarmos o niilismo na sua forma mais radical, então podemos dizer que nada faz sentido, nada é absoluto, toda conduta humana é possível, tudo é permitido e nada tem uma razão de ser. Para o niilismo a necessidade humana de encontrar sentido para tudo vem de nossa relação empírica com o mundo: percebemos o mundo através de relações de causa e efeito. Para cada fenômeno observado, observamos uma causa que lhe deu origem, e assim por diante. O sentido que imaginamos haver no mundo observável advém da percepção empírica de que para cada fenômeno deve haver uma causa. Mas, nada nos pode garantir que a relação entre causa e efeito seja realmente uma “característica” do universo. Os niilistas acreditam que essa relação é apenas um “método” adquirido pela nossa razão para entender o mundo: jamais poderemos saber como as coisas realmente são; apenas podemos saber como as coisas se relacionam uma com as outras. A essência de uma coisa é o seu “fenômeno”: seu comportamento em relação a outros fenômenos.
A hipótese niilista, embora sendo a mais sincera de todas (não é possível afirmar categoricamente nenhum sentido para a existência, e jamais saberemos como as coisas realmente são), não é bem vista mesmo nos dias de hoje. Muitos vêem no niilismo uma forma destrutiva de pensar: existência sem sentido é existência sem valores; e existência sem valores é a negação da sociedade humana. O lado “estéril” do niilismo está em não apontar nenhuma razão para a existência humana, e consequentemente, nenhuma razão para a existência de leis, de vida em sociedade, ou conduta moral. O niilismo simplesmente nos mostra que o ato de existir é uma gigantesca insensatez: um beco sem saída para a razão humana.

A HIPÓTESE EXISTENCIALISTA
A hipótese existencialista é um “niilismo moderado”. Não há um projeto para o universo e nem para o ser humano. A existência não tem sentido. Mas, a consciência humana é inevitavelmente livre, e essa inevitável liberdade cria inevitavelmente um sentido para o mundo.
A hipótese existencialista parte de uma longa meditação sobre a natureza da consciência humana (e quem quiser conhecê-la em detalhes basta ler “O Ser e o Nada” de Sartre). A muito grosso modo, a consciência emana de uma coisa (nosso cérebro), mas não é essa coisa (não é o próprio cérebro nem está em nenhuma de suas partes), por isso não é substância (não existe como coisa). A consciência é a manifestação da estrutura cerebral, por isso não está em parte alguma do cérebro. Fazendo uma analogia, a consciência é assim como o nosso conceito de “força”. Força é tudo que produz o movimento de um corpo, mas não podemos dizer que ela existe como coisa, não podemos separá-la de um fenômeno físico e dizer “aqui está a força”. A força é a manifestação da estrutura de um fenômeno. Da mesma forma, não podemos separar a consciência dos fenômenos cerebrais e dizer “aqui está a consciência humana”.
Para os existencialistas, a consciência é “nada” (não existe como coisa, como substância). O que a consciência faz é simplesmente perceber, e quando percebe-se a si mesma torna-se “consciência reflexiva” (o famoso cogito cartesiano). A reflexão da consciência sobre as coisas do mundo e sobre si mesma é completamente livre: ela cria os sentidos que bem entender para o mundo e para si mesma. A essência da consciência humana é ser livre. E desta inevitável liberdade da consciência em criar sentidos para tudo, os existencialistas postulam uma saída: a existência terá qualquer sentido que dermos para ela. Se a consciência é um dínamo criador de sentido (está condenada à liberdade de criar sentidos), então A EXISTÊNCIA TEM NECESSARIAMENTE DE TER UM SENTIDO (o sentido que dermos para ela).
Sem dúvida, a hipótese existencialista é mais agradável do que a niilista: estamos condenados à liberdade, à inevitável liberdade de dar sentido para a existência. E a palavra “condenado” tem de ser entendida em seu sentido literal: não há como evitar a liberdade, não há como não dar sentido à existência.

A HIPÓTESE MÍTICA-RELIGIOSA
A solução mítica ou religiosa para a existência não é tão absurda quanto alguns agnósticos crêem ser. A crença em um mundo supra-real resolve de uma tacada só muitas questões cabeludas sobre a existência: dá sentido à vida, à sociedade humana e aos códigos morais. Segundo Lévi-Strauss, o pensamento mítico-religioso não apresenta nenhuma oposição ao pensamento científico, nem vice-versa: os dois tipos de “entendimento do mundo” podem conviver juntos em perfeita harmonia. O confronto só acontece quando questões de poder estão em jogo: quando, por exemplo, uma instituição religiosa vê seu poder como instituição ameaçado por idéias científicas, ou vice-versa.
Outro tipo de confronto acontece quando tentamos racionalizar, ou interpretar, a crença mítica-religiosa com o intuito de adequá-la às nossas “atitudes mundanas”. Basta ler os Evangelhos com atenção para perceber que a concepção de Jesus da existência é “barra pesada”: “o servo é superior ao seu mestre”; “é mais fácil um camelo passar pelo vão de uma agulha do que um rico entrar no paraíso”; “se quiser me seguir, largue tudo e me siga”. Não é fácil adaptar estas máximas cristalinas (que não deixam lugar para interpretações) às nossas atitudes cotidianas. A neurose do cristão (as suas insolúveis contradições internas) está em tentar resolver racionalmente suas contradições. Tentar resolvê-las seria o mesmo que considerar Jesus um cínico. E Jesus pode ter sido tudo menos um cínico: preferiu morrer a ter que mudar uma vírgula daquilo que acreditava.
A infecunda e neurótica interpretação do pensamento “radical” de Jesus é o que causa as aberrações religiosas tão comuns hoje em dia. No entanto, a concepção religiosa em si nada tem de contraditório ou aberrante. Como dizia Lévis-Strauss, é simplesmente uma “outra forma de raciocínio” que tenta dar sentido a existência.

A HIPÓTESE CIENTÍFICA
A atitude científica é a de deixar o sentido da existência “em suspenso” por falta de dados. A hipótese científica não nos diz se há ou não um sentido para a existência. A ciência simplesmente atém-se ao estudo da estrutura da matéria (o universo como fenômeno) na esperança de um dia descobrir mais uma pequena peça do gigantesco quebra-cabeça cósmico.
É tolice das grandes achar que a ciência não se ocupa de questões existenciais ou ontológicas. Abra qualquer livro sério sobre cosmologia ou física de partículas, e você terá a impressão de que foi escrito por um filósofo escolástico. Existe na hipótese científica, assim como na hipótese mítica-religiosa, uma busca de unificação, uma procura por uma manifestação única do universo, uma lei básica que tudo governa. Para muitos cientistas sérios (e Einstein pode ser incluído neste grupo), o universo se manifesta como uma entidade una cujas leis ainda nos atordoam, mas que um dia poderão ser descobertas e apreciadas em sua totalidade: através do conhecimento físico do universo poderemos um dia finalmente olhar a “face de Deus”. Um Deus que talvez não seja nada do que hoje se imagine ser. Não é a toa que muitos destes cientistas se digam “espinosistas”. Espinosa talvez tenha sido o filósofo metafísico que mais sucesso teve em conciliar uma visão materialista da natureza com uma hipótese metafísica da existência divina. Espinosa constrói sua metafísica partindo de uma idéia bastante simples: se a principal característica de Deus é ser absoluto e infinito (note o uso da condição “se”), então TUDO DEVE SER DEUS. Se Deus fosse um ser supra-real (separado de sua própria criação), então haveria um “lugar” onde Deus não estaria, assim Deus não seria absoluto. A condição para que haja um Deus absoluto é a de que Ele SEJA tudo (note o uso da palavra “ser” ao invés de “estar”). Para Espinosa, Deus não pode ESTAR em tudo (como é o princípio normalmente professado por religiosos), mas deve necessariamente SER tudo.
A concepção espinosita da existência divina é muito simpática à concepção cientificista do universo: o conhecimento físico do universo pode nos revelar Deus, pois seria Ele que estaríamos “estudando”.

CONCLUSÃO INCONCLUDENTE
O que é então a existência? Uma absurdidade sem sentido e sem propósito? Uma absurdidade com qualquer sentido e propósito que desejarmos? Uma gigantesca insensatez sobre a qual construímos a frágil sensatez da sociedade humana? Uma incógnita em suspenso? Uma eterna busca de sentido? Um mistério divino? Um jogo de esconde-esconde entre Deus e a humanidade?
Mesmo que você não tenha como responder estas perguntas, certamente conduz sua vida apoiado em alguma hipótese. Mesmo o indivíduo mais autômato carrega dentro de si uma hipótese reconfortante ou um pavor indizível diante do absurdo ato de existir.

Poeminha do Malaquias

Penso porque quem pensa existe,
já dizia o sábio Descartes.
Não sou Hegel nem sou Nietzsche,
sou Malaquias Malazartes.